Theriz Journal

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Entrevista: Maria Elisa Cruz Lima


NYC, Aug 18, 2016

Mais uma entrevista especial que divulgo aqui hoje! Quero apresentar a vocês a minha amiga de Twitter, Maria Elisa! Isso mesmo, nos conhecemos através da rede social e a afinidade foi imediata :) 


1 - Oi Maria Elisa! Apresente-se para nos e conte um pouco sobre você.. Onde mora? Qual sua Profissao..

Oi, Thereza. Moro em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil. Sou Designer, Creation Consultant, Blogger, Digital Fashion & Art Curator. 
Tive 2 marcas próprias aqui no Brasil. A primeira foi de jeans e a segunda de vestuário em couro de cabra. 
Atualmente sou Consultora de Criação e Conteúdo, Fundadora e editora do site Fragmentosdemoda.com, através do qual estou iniciando um trabalho de Curadoria em Arte e Moda.

2 - Você foi um grande achado no Twitter! Fico impressionada toda hora que você me conta a trajetória de sua carreira no mundo (particular e restrito) da moda. Conta para os leitores aqui do blog também, porque eles precisam saber!

Em primeiro lugar gostaria de registrar como fico agradecida por tuas palavras sobre minha pessoa no Twitter ao qual demorei muito para ingressar. Em segundo lugar, pela honra de responder tuas perguntas. 
Minha formação em moda é resultado de uma longa trajetória de estudos, pesquisas e práticas, cuja expertise adquiri com autodidatismo. 
Minha graduação é em Letras [UFURGS], o que justifica meu Inglês e, minha atração por Literatura e Arte. 
Inicei criando uma coleção de jeans no ínicio da década de 80, MARIA JOANNA, onde durante 20 anos concorreu com as demais marcas fortes no Brasil. 
Viajei centenas de vezes para a Europa – algumas vezes Estados Unidos – para conhecer de perto o trabalho de grandes designers. Foi a partir disso que comecei a descobrir que moda é arquitetura, envolvendo planejamento, estudo, criação e desenvolmimento. É necessário um conhecimento sério da anatomia do corpo para que a modelagem faça valorizar os traços e curvas legados pela natureza. 
Em minhas criações, sempre revelei um tendência ao minimalismo e atemporalidade. Para mim o design tem que caminhar junto com a modelagem, qualidade, inovação e detalhes não perceptíveis à primeira vista, mas que fazem grande diferença no visual como um todo. 
A fundação e editoração do site deve-se à minha paixão por moda, arte, fotografia, viagem etc., visando compartilhar com os meu seguidores meu conhecimento e minhas experiências – que dariam um livro - - além de servir como uma plataforma de possíveis novas oportunidades de novos horizontes no mundo digital.

3 - Estou curiosa, quais designers você teve o prazer de conhecer? Alguma história inusitada que vale a pena compartilhar?

Muitas vezes é mais importante conhecer a obra do que o próprio autor. 
Tive o prazer de conhecer de perto o trabalho do meu ídolo Yohji Yamamoto – passava horas dentro de suas lojas, vestindo suas inacreditáveis peças e conversando com seus maiores assistentes. 
Conheci pessoalmente Jean Paul Gaultier - que é um fofo - e também degustei sua espetacular modelagem e qualidade na Galerie Vivienne em Paris, onde fui repetidas vezes. 
Devorei as peças sensacionais de Marithé et François Girbaud que me inspiraram muitas e muitas coleções. Artistas inesquecíveis. 
Sinto muita falta de Alexander McQueen – outro gênio que o mundo da moda perdeu. Havia comprado um casaco curto dele 3 meses antes dele partir. É a minha relíquia. Diga-se passagem, guardo peças destes designes no meu baú de tesouros. 
Na lojas de Issey Myiake sempre bati meu ponto para me inspirar com suas “Pleats, please” e viajar na arte de sua arquitetura, matérias e cores. 
Sempre, quando em Paris, costumava ir à noite para livraria LA HUNE – na esquina oposta ao Café de Flore – para estudar e adquirir alguns livros de moda e arte. O dono já me conhecia e fazia uma festa cada vez que eu chegava de viagem. Certa noite, me chamou atenção um cara alto que empilhava, nos braços de seu assistente, uma quantidade significativa de livros sobre cinema. Ao olhar melhor, vi ninguém menos que Karl Lagerfeld – que ao perceber meu espanto – sorriu-me e disse: “Inspiration!”. E eu repondi:”Superbe!”. (minha parte preferida!)
Na década dos 90, havia uma loja em Paris chamada CHEVIGNON. Era o ponto de encontro dos brasileiros que fabricavam jeans. Lá cruzei com o Tufi Duek da Forum, o Renato Kherlakian da Zoomp e muitos outros. O produto da marca era muito inspirador realmente. Retornando ao assunto arquitetura de moda, não posso deixar passar em branco as peças do visionário designer Claude Montana. Eram estonteantes. Há uns 2 meses atrás, li um artigo de Tim Blanks, do Business of Fashion, perguntando aos leitores se não concordariam que este era o momento de Claude retornar ao mundo da moda. Não sou somente eu que tenho saudades.... 
Nos anos 80 comprei um blazer assimétrico de Rei Kawakubo, na Comme des Garçons, em Paris, para mostrar ao meu pessoal da equipe de modelagem o que significava o conceito de arquitetura em moda. Se eu fosse relatar tudo iria levar algum tempo e resultaria num livro. Só com Xuly Bet – um designer “crazy” e querido sobre o qual havia lido uma notícis que estava bombando na media com suas criaçôes. Era um estilo new grunhe que ele mesmo costurava. Em seguida, quando fui à Paris tomei o metrô até 16 arrondissement e fui recebida pelo próprio, incrivelmenye num Hospital abandonado, onde ele e mais vários artistas possuiam ateliers. O que ocorreu lá daria uma matéria..



4 - Sobre suas viagens para fora do Brasil, o que foi pesquisar? Tendências? Quem você acha que realmente dita as regras do que vestimos hoje?

Viajei muito para pesquisar tendências, conhecer de perto a filosofia de cada designer tops de cada época. Sentir no ar as influências da arte, arquitetura, teatro, cinema, música etc. na criação de moda. A moda é o retrato do momento histórico, cultural e financeiro, como sabemos. A tudo isto é que nomeamos Tendências. Por isso é necessário ficar antenado para tudo o que ocorre à nossa volta... 
As cidades nas quais eu permanecia mais tempo era Paris – sinto-me como se estivesse em casa -, Londres, Milão e Florença. Fui várias vezes para Saint Tropez, Nice e Mônaco, para sentir o espírito verão dos franceses – elegantes por genética. No início de minhas viajens fui várias vezes à Roma e numa destas idas estiquei até Veneza. Estive em Berlim, Barcelona, Ibiza, Los Angeles, São Francisco, Nova York, Miami, Havaí e Las Vegas. De cada um destes locais sempre trouxe uma inspiração que se refletia nas coleções. 


Para mim a convicção de que “os olhos têm que viajar”, conforme dica da icônica Diane Vreeland é uma regra. E eu adoro. Como falo 2 línguas - Português e Inglês - e um Francês razoável, é estranho, mas parece que os estrangeiros me entendem melhor do que os brasileiros. Alguns conhecidos já me disseram, desde que o blog que mantive por 3 anos no ar [fragmentosdemoda.blogspot.com.br] que eu deveria escrever sobre pautas mais triviais para que entendessem melhor. O que para mim é difícil porque os meus “fragmentos de moda” foram criados no estrangeiro... 
Entre os designers que mais admiro hoje – e acredito em suas fortes influências – citaria Nicolas Guesquière – sou fã desde seu trabalho na Balenciaga – hoje diretor criativo da Louis Vuitton. Curto demais o minimalismo atemporal de Phoebe Philo , hoje no comando da Céline. Admiro o visionário Raf Simons que deixou um “gap” na Christian Dior e promete agora na Calvin Klein. 
Gosto de Isabel Marant, Chloé, Alexander Wang e Demna Gvasalia que veio da conceitual marca francesa Public School, criada por vários designers e agora fazendo sucesso com seus “duffer coats” na Balenciaga, e não posso ignorar a genialidade conceitual do icônico John Galliano, como um artista profundamente conhecedor de moda e arte. Sobre Alessandro Michele da Gucci prefiro não comentar porque já cansei de estilo retrô.

5 - Quanto ao Brasil, nesses 40 anos de carreira, o que mudou pra gente? Conseguimos um lugar ao sol ou ainda temos muito que evoluir? Ainda mais com essa crise econômica, política e moral que estamos enfrentando, não é mesmo?! Você sente isso? Sofreu alguma consequência com tudo que está acontecendo no país?

Que pergunta triste!!! O Brasil tem muito que evoluir. Em primeiro lugar na âmbito cultural e em segundo na questão econômica, que parece uma montanha russa. Quando parece que vai se alçar, despenca. Se já existe crise internacional no mundo fashion – os designers continuam no jogo das cadeiras – imagina aqui, com todo o desemprego, fechamento de indústrias de vestuário e calçadista, empresários em depressão, de que maneira um especialista em moda pode ser valorizado? Temo que demorará algum tempo. Fico aguardando algum empreendedor de fora que venha para cá e nos dê este lugar ao sol.

6 - Pergunto isso por experiência própria. A construção civil foi o setor que mais sofreu deixando milhares de pessoas desempregadas, inclusive eu mesma. O setor da moda também sofreu assim?

Ao meu entender, no mesmo nível ou mais. Afinal são 11 milhões de desempregados. O prazer de consumo evaporou da vida dos brasileiros, na atual conjuntura, infelizmente.

7 - Mudando de assunto, para descontrair um pouco. Mídias sociais! Te sigo no Twitter e Instagram e você tem sempre algo novo para compartilhar! Não falta assunto.. Como você consegue?

Sempre fui ávida por novidades da moda, arte e cultura em geral. Para ser verdadeira não paro nunca. A paixão por moda não me deixa parar nunca. Não me conformo em pensar que ocorreu uma novidade e não fiquei sabendo.Assim que descubro algo novo desejo logo compartilhar. Mas estou no aguardo de colaboradores e investidores para o site...

8 - E quanto ao seu blog? Conta a história pra gente...

Tudo começou com o blog - citado anteriormente – em janeiro de 2013. Apenas como um hobby e uma espécie de diário. Mas o número de seguidores foi aumentando e me sugeriram a montar um site. Foi o que fiz. Como não linkei um no outro, há seguidores que pensam que desapareci. É como se tivesse começando tudo outra vez. Mas no Google Search já estou bem posicionada para 3 meses e meio de existência do Fragmentos de Moda.

9 - Com toda essa expansão da internet, a velocidade da informação e consequentemente da necessidade de ter sempre algo novo para oferecer. À moda tem futuro?

A moda está em fase de transição. Acho que tem que surgir um novo Christian Dior para mexer com a cabeça das mulheres e as fazerem enlouquecer novamente. Também acho que este novo “Christian” terá muito trabalho para ser bem sucedido no momento da valorização do estilo pessoal, consciente que a mulher já sabe o que quer e que ninguém irá forçá-la a um estilo imposto como em 1947.. Realmente é uma tarefa muito difícil ser criador de moda nos dias de hoje. Este é um dos motivos - acrescido da pressão do tempo em criar várias coleções - que levam talentosos designers abandonarem a profissão.. Criar moda é como criar arte. Criação exige tempo e inspiração. Porque será que nas últimas décadas alguns designers têm lançado coleções que parecem um “déjà vu”? Seria falta de talento? Com certeza não. É fácil encontrar uma resposta para isto….

10 - Para finalizar, uma rapidinha:

Um estilista ou marca preferida?
Nicolas Guesquière. Um parênteses: Não curti a coleção Resort 2017 aqui no Rio, mas as anteriores foram ótimas.

Um estilo arquitetônico? 
Frank Gehry

Filme preferido: 
'The Painted Veil' como entedo e como inspiração de moda 'Out of Africa' e 'Breakfast at Tiffany’s' entre vários outros. Sou apaixonada por cinema e o figurino sempre faz parte de minha atenção.


Um lugar/ país que mais te marcou em todas as viagens, se pudesse voltar p algum deles, qual escolheria? 
Será que preciso dizer ainda? De qualquer forma aqui vai, Paris e interior da França.


Gente, tambem se apaixonaram pela Maria Elisa? Sigam no twitter @MARIAELISACLIMA
O site tambem esta aqui: Fragmentos de Moda


* As imagens fazem parte de seu acervo pessoal.